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Anke Schaeffers, Chefe da Seccao Cultural e de Imprensa, Embaixada do Reino dos Paises Baixos


É uma honra e um prazer poder inaugurar, neste magnífico cenário – esta igreja lindíssima nesta cidade de uma beleza singular –, a exposição da minha compatriota Ingrid Simons.

Congratulo-me pela excelente colaboração, já de há muitos anos, entre a Câmara de Évora e a Fundação Obras, sempre em perfeita simbiose concebendo iniciativas que enaltecem o espírito e promovem a dinâmica cultural entre Portugal e, entre outros, Holanda.

Ingrid Simons foi já por duas vezes nomeada para o prestigiado galardão holandês ‘Prémio Real de Pintura Livre’. Não surpreende: os quadros da Ingrid parecem possuir uma força quase sobrenatural, pelo menos é essa a minha impressão: sabem falar e até acenar! E se não é falar, pelo menos sabem sussurrar ao ouvido: – Vem, vem – , atraindo o espectador com um misto de beleza e mistério. O espectador não resiste, sai do seu cómodo lugar e eis que entra no mundo do quadro, com a maior das facilidades aliás, pois o próprio quadro ajuda, indicando o caminho.

O desconforto vem só a seguir, uma vez chegado ao destino: uma espécie de limbo, um espaço gélido, algo horripilante, intemporal e feito de dualismos: preto e branco, luz e trevas, sol e lua. O espectador está preso, cativado, mas não está só. A prova disso surge quando a artista, de repente, dá sinal de vida e, tal como na auto-estrada quando em excesso de velocidade, activa o flash do radar: a radiografia da condição humana foi posta a nu, o espectador encontra-se entregue a si mesmo, e ao desafio de se interrogar sobre os seus limites.

– As mais belas flores vivem à beira do abismo – é uma expressão que fascina a artista. E os quadros de Ingrid Simons servem de isco para chamar, com subtileza, o espectador até lá, até ao limite da realidade: – Vem, atreve-te, está aqui escondido o mistério da criação humana! –

Caros presentes, não desanimem: há clemência, afinal! A obra da artista tem evoluído, revelando, recentemente, mais desenvoltura e atrevimento. A artista leva-nos com mais firmeza pela mão, sem medo das vertigens, mostrando-nos que os aparentes contrastes – preto e branco, luz e trevas, sol e lua – são, na verdade, um todo: cada metade representa em si o preto e o branco, a luz e a escuridão, vida e morte, Deus e Demónio. O preto e – como Newton demonstrou – o branco guardam dentro de si todas as cores do arco-íris: as mais belas flores encontram-se lá, de facto!  E assim, a obra de Ingrid não fala de contrastes, mas sim, de relações, de relações entre a artista, a obra, o espectador e o seu meio. É uma homenagem ao ‘wonderful world’ em que todos vivemos.

Certamente as paisagens misteriosas do Alentejo formam uma inesgotável fonte de inspiração para os artistas e os apreciadores de arte. Faço votos para que a Câmara de Évora e a Fundação Obras continuem, com tanta generosidade e competência, a disponibilizar os seus recursos para que as artes possam sempre continuar a florescer e a enriquecer!

Por fim: A deusa hindu Kali encarna a ideia de que a criação e a destruição estão intimamente interligadas, que dependem uma da outra para poderem evoluir e que só assim, de facto, o ciclo da vida se completa. Fiel a este pensamento hindu, que para completar o ciclo natural das coisas, também determina que um discurso não existe sem brinde, convido-vos a brindar a esta estreia de Ingrid Simons em Portugal. Votos de muitas felicidades a todos!                                                                       

© Anke Schaeffers, Marco 2010

Fundação OBRAS é o iniciador desta exposição. Foi organizada em estreita colaboração com o

departamento de cultura da Câmara Municipal de Évora.